Dekmantel faz história ao apostar que Hermeto Pascoal e Azymuth são vanguarda mundial

Fabiano Alcântara

Por

Atualizado em 6/02/2017

Hermeto Pascoal

Gabriel Quintão Hermeto Pascoal

Leia mais

Melhor line-up entre os festivais de música desde o Sónar 2012, quando São Paulo ajustou suas placas tectônicas ao som de Björk, Mogwai, James Blake,  Flying Lotus, Four Tet, a chegada ao Brasil do festival holandês Dekmantel mostrou que é possível ir além.

A primeira edição do evento foi feliz ao integrar nomes da vanguarda internacional – Nicolas Jaar, Jeff Mills, Nina Kraviz, Juju & Jordash, Moodymann, John Talabot, Fatima Yamaha, Hunee – e heróis locais da cena instrumental, DJs e produtores de música brasileira.

Instalado no Jockey Club, o festival recrutou um time de peso da arquitetura para trazer uma cenografia que dialogasse com o espaço. A preocupação principal, no entanto, era com o som, aspecto em que o Dekmantel foi aprovado com louvor.

Reinou paz, amor, unidade e respeito, em sintonia com o lema raver P.L.U.R. (peace, love, unity, respect) dos anos 90. Mas ali nada tinha de rave. Era, sim, a estreia histórica de um festival de música eletrônica e dançante.

Nem mesmo a tempestade de sábado atrapalhou. Se não existe baile sem dançarinos e a música é boa, dançamos na chuva. Para falar a verdade, ela até fez falta no calor de domingo.

No sábado, enquanto rajadas de vento envergavam as palmeiras do Jockey, a bateria suingada de Mamão do Azymuth parecia chamar a chuva. Kiko Continentino, ao piano elétrico e sintetizador, desfilava seu repertório, emendando citações de temas, de improviso. Peça fundamental do contrabaixo brasileiro, Alex Malheiros não se intimidou com a pressão de fazer milagre em casa e voltou a realizar o milagre da multiplicação dos grooves.

Cascudos com a participação de festivais em todo mundo – chegaram à Índia em 2016 – o Bixiga 70 tocou pesado e com unidade, em outro momento de orgulho caseiro também protagonizado pelo DJ Tahira, atraindo rodas na lama para dançar carimbó.

Já no domingo, Hermeto Pascoal foi sem massagem. O bruxo, de 80 anos, sofreu com o calor, mas não se entregou e nem simplificou a sua música. Máquina de improviso azeitada, sua banda entregou uma sopa musical baseada em música nordestina, jazz e música erudita. Cromatismos e técnicas complexas de harmonia e ritmo não afastam o mago e sua banda de fazer música dançante e popular.

Hermeto mostra que é possível pensar e dançar, assim como é possível apenas dançar. Não foi apenas Miles Davis, que o chamava de “albino louco”, que foi nocauteado. Perto de mim, dois artistas que haviam se apresentado um dia antes não conseguiam esconder seu transe. Enquanto Sassy J, da Suíça, sacudia as cadeiras, Brian Shimkovitz, do Awesome Tapes From Africa, mexia a cabeça, sentado no chão, entregue ao som.

A experiência de ouvir Hermeto é mística, as frases são como rezas, mantras, os ritmos são águas caudalosas de rios e mares. Ele é uma força da natureza e quem esteve lá constatou. Assim, o bruxo alagoano deixou o Dekmantel com mais alguns convertidos à sua religião musical.

Sugerir correção

Relacionados ao assunto

Carregar mais

Comentários